quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

O tempo das coisas


Argentina, El Tigre, eu acho.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Com quantos anos se faz um esquecimento?

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Memórias de La Paz

Este palacio es fábrica de los dioses, pensé primeramente. Exploré los inhabitados recintos y corregí: Los dioses que lo edificaron han muerto. Noté sus peculiaridades y dije: Los dioses que lo edificaron estaban locos.
Jorge Luis Borges, El inmortal

La Paz não poderia existir. Alguém sonhou e ela se fez. Escolheram um buraco, un hueco cavado no Altiplano, para erigir esse monumento índio. É como um tacho com paredes internas cor de tijolo e fundo de asfalto. Todas as encostas que circundam a cidade são densamente povoadas por casas e pequenos edifícios sem revestimento por fora, colorindo monocromaticamente a cidade de marrom-claro. De qualquer ponto do centro é possível ver as encostas ingrimes que circundam a cidade.

Chega-se em La Paz por El Alto, a área metropolitana que fica do lado de fora do tacho, no Altiplano propriamente. É onde vive a população mais pobre. Vindo de Santa Cruz, cruzando a madrugada, acorda-se com o Illimani na janela direita do ônibus. O Illimani, que em quéchua significa águia maior, é um monte nevado que parece ter sido colocado no horizonte da cidade apenas para confirmar que o lugar é inexplicável. Não bastasse estarmos na capital mais alta do mundo, a 3600 metros acima do nivel do mar, a montanha, com mais de 5000 metros de altitude, parece ser uma das colunas a sustentar o céu.

Descendo as encostas em direção ao centro, chega-se a uma legitima capital nacional. As chollas e suas enormes bolsas coloridas não deixam esquecer a história da colonização. O peso das sacolas, que por vezes vira mochila para carregar os filhos pequenos, faz essas mulheres andarem curvadas e com passinhos sempre apressados. Estão em outro universo de significação. Conosco, falam somente o essencial.

Explorando suas ruas, deparei-me com um grande fluxo de pessoas saindo de um beco na Avenida 16 de Julio. Um mar de idosos transbordava de uma pequena escada ao fundo de uma galeria. Intrigado, entrei no meio da multidão e descobri que se tratava de uma reunião de jubilados (aposentados) de La Paz para reivindicar melhores benefícios. A idade avançada era usada pelos patrões como motivo para afastá-los do trabalho regular. Recebendo menos do que ganhavam quando empregados, muitos prefeririam continuar trabalhando pelo antigo salário.

Na Plaza Pedro D. Murillo estão os prédios do Legislativo e o Palácio Presidencial, lado a lado. Vi crianças, adultos, idosos, cachorros e pombos, todos passeando naquele fim de tarde às portas de Evo, esse índio descido num ponto quase equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. La paz invadiu o meu coração. Foi melancólico deixá-la para trás, principalmente por saber que eu ainda não a havia entendido completamente.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Da mansarda

A partir de hoje, convido todos que acompanham este blog a seguir as minhas e outras conversas em um novo endereço. Como muitas coisas em nossas vidas são unificadas, eu, Rodolfo, Rafael e Pedro unificamos nossos blogs. De lá, continuaremos a olhar.

Este endereço permanece, mas como um arquivo. Um dia, quem sabe, volto aqui para falar sozinho, mas com vocês. Agora, à mansarda!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ética, estética e engenharia urbana


Lukács, por razões que fogem ao objetivo dessa breve postagem, considera em seu tratado inacabado sobre estética que a Arquitetura, ao contrário das demais formas de manifestação artística, apenas regrediu com a emergência do modo de produção capitalista. Para o autor, essa arte não experimentou nenhum avanço significativo desde a consolidação da sociedade industrial, sendo consumida e diminuída diante dos imperativos sociais próprios da modernidade. O que me faz recordar os elementos da filosofia lukacsiana não é somente a questão estética, mas a constatação de que outros importantes campos da atividade humana aparentemente também padecem do mesmo mal apontado pelo autor. A engenharia urbana (intimamente relacionada às preocupações de Lukács sobre a Arquitetura) é uma das práticas que parece apenas piorar com o avanço daquilo que chamam Progresso, pelo menos do lado de cá dos trópicos. O homem constrói cidades há pelo menos cinco mil anos, mas até hoje não conseguiram fazer um sistema de drenagem eficiente para as cidades brasileiras. Por aqui, chuva forte é sempre sinônimo de caos.

Ao longo da história, diversas sociedades demonstraram métodos de lidar com as intempéries. Será que a Roma Antiga sofreria tão recorrentemente com enchentes causadas por chuvas? Machu Picchu, no topo das montanhas, é um exemplo que resiste ao tempo e ao clima de uma das regiões mais chuvosas do continente americano. O homem já foi à lua e é capaz de edificar os maiores arranha-céus que a imaginação concebe, cavando fundações que parecem se aproximar do centro da terra. Por outro lado, não se preocupa em construir galerias e sistemas de esgoto compatíveis com a voracidade imobiliária das nossas grandes cidades. Na verdade, o problema não está na evolução das técnicas de engenharia urbana, mas naquilo que é definido como prioridade e como modelo de expansão urbana. O dever ser projetado para as cidades de países como o nosso quase sempre exclui das considerações as obras de infraestrutura necessárias a tornar o espaço mais humano e realmente em consonância com as necessidades de seus habitantes. O que importa não são propriamente as condições de vida, mas a necessidade de adequar a arquitetura social às necessidades de expansão desenfreada do lucro. A questão envolve diferentes aspectos, mas reside sobre o pano de fundo histórico das relações entre ética e capitalismo, entre pensar em si e pensar em nós.

PS: A única drenagem eficiente de que tive notícia durante as enchentes no Rio de Janeiro foi a do estádio do Maracanã. Parece piada.

PPS: Quando penso no viaduto do Minhocão, em São Paulo, ou na extinção dos sobrados que outrora abundavam no Rio Antigo, tenho certeza de que Lukács tinha razão.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Porque una pasión es una pasión


El tipo puede cambiar de todo... De cara, de casa, de familia, de novia, de religión, de dios. Pero hay una cosa que no puede cambiar, Benjamín: no puede cambiar de pasión.


segunda-feira, 22 de março de 2010

As intermitências da mídia

Parte II

Assim que acordaram, dividiram-se entre os aparelhos da casa: rádio, televisão, celulares, internet. Como na véspera, nada funcionou. O intercomunicador estava mudo, como o telefone fixo. O jornal não estava no capacho. Tomaram café da manhã quase sem se falarem. Não estavam aborrecidos, mas criando expectativas silenciosas sobre o mundo lá fora. Despediram-se no estacionamento do prédio com um beijo rápido. Cada um entrou no seu carro e rumaram para seus trabalhos. Ele, professor, chegou ao colégio em que lecionava antes de todos os alunos e demais professores. Cumprimentou o vigia do prédio e contou o que se passava. O mesmo acontece comigo, professor, lá em casa nada funciona. O zelador apareceu e disse que sua situação era a mesma. À medida que os alunos chegavam, o vento de normalidade, por um instante, pareceu soprar novamente. Mas se o burburinho era o de sempre, o assunto não. Todos falavam sobre a mesma coisa. Passou-se um bom tempo até que a turma fizesse silêncio e ouvisse do professor que ele também não sabia explicar o que estava acontecendo em toda a cidade.

Ela, enfermeira, chegou ao hospital atrasada. O trânsito parecia pior que o de costume. Na recepção, funcionários, pacientes e acompanhantes comentavam a mesma coisa: o que já havia sido apelidado de mal silente. Ironicamente, o tom de muitos comentários era reprovatório com relação à ausência de notícias sobre caso. E as primeiras consequências já se faziam perceber. As crianças da ala pediátrica reclamavam que as televisões dos quartos não funcionavam. A enfermeira e as colegas passaram boa parte do dia entretendo-os com jogos e histórias. Depois do trabalho, o casal se encontrou no apartamento. Tentaram fazer funcionar a televisão e o telefone, mas nem chegaram a ligar o rádio novamente. Tudo continuava fora do ar. Pouco depois de jantarem, alguém bateu à porta. Era o filho do síndico do prédio, convocando todos para uma reunião extraordinária. Eles, que jamais haviam participado de qualquer reunião de condôminos, resolveram que, desta, não poderiam se ausentar. Nunca uma reunião contara com a participação de representantes de todos os apartamentos.

Em meio ao falatório, o síndico pediu a palavra e relatou o que vinha acontecendo no seu apartamento. Os moradores recomeçaram a falar, todos aos mesmo tempo, afirmando que o mesmo se passava em suas casas. O morador do segundo andar reclamou da ausência de informações por parte das autoridades municipais. A viúva, moradora do terceiro andar, objetou sem paciência que, como nenhum meio de comunicação funcionava, não havia como as autoridades se pronunciarem sobre o caso. O morador do sexto andar sugeriu que formassem uma comissão para ir até a prefeitura e descobrir o que estava acontecendo. A enfermeira sugeriu que a missão fosse enviada a alguma emissora de televisão ou de rádio, pois lá saberiam dar detalhes técnicos sobre o assunto. Decidiram que se dividiriam em duas equipes para averiguar o caso no dia seguinte. O professor e a enfermeira se encarregaram de passar na sede da emissora de televisão que ficava próxima ao hospital onde ela trabalhava. O síndico e o morador do sexto andar iriam à prefeitura. No fim do dia, todos se encontrariam no mesmo horário para dividir as informações. Dispersaram-se. Se isso continuar, vamos ficar todos loucos, alguém comentou ao sair do elevador.

No dia seguinte, por força do hábito, a enfermeira apertou o botão do controle remoto da televisão. Guerra de mosquitos, disse consigo mesma. Tomaram café rapidamente. Entraram no carro dele e seguiram para a emissora de TV. Ao chegar, um grupo de pessoas já se concentrava na porta do edifício. Alguns traziam cartazes e organizavam palavras de ordem. Quando se aproximaram, entenderam que se tratava de um protesto contra a situação. Alguns culpavam a própria emissora pela negligência, pela descontinuidade dos serviços. Alguns manifestantes reclamavam de uma suposta greve dos funcionários dos meios de comunicação, o que seria inaceitável para eles, mas ninguém sabia ao certo o que se passava. A manifestação parecia esperar alguma cobertura jornalística, mas, dada a situação, não havia nenhuma equipe da imprensa cobrindo o incidente. O professor conversou com o segurança que cuidava da entrada. O acesso era controlado e apenas pessoal autorizado podia entrar no prédio. Diante da falta de informações e da confusão instalada, decidiram que o melhor era tentar obter informações por outro meio. Voltando para o carro, o professor avistou um rosto conhecido. Era um amigo dos tempos de infância que estacionara ao lado. O professor logo perguntou o que o outro fazia por ali e o amigo respondeu que estava indo ao trabalho. Claro, você é jornalista, como pude esquecer?! A coincidência era quase milagrosa, por isso não pôde evitar a pergunta. O que está acontecendo? O colega respirou fundo e disse que ninguém sabia explicar a situação. Todas as equipes de TV, rádio e dos jornais impressos estavam a postos como sempre, mas as máquinas simplesmente não respondiam. Nada que registrasse ou transmitisse som, imagem ou textos funcionava. Era um mistério. Em outros jornais, os colegas relatavam o mesmo. Os técnicos trabalhavam dia e noite para tentar resolver o problema, mas não conseguiam sequer saber qual era o problema, pois tudo parecia em perfeita ordem. Não se sabia a amplitude do apagão. Não conseguiam contato com outras cidades nem com outros países. Nem sei por que vim aqui hoje. Muitos colegas decidiram que ficariam em casa até tudo voltar ao normal. A verdade é que não tenho o que fazer no trabalho. Despediram-se marcando um encontro, mas não tinham o endereço um do outro e, sem telefone, não poderiam se falar para marcar uma data.

O professor deixou a esposa no hospital e foi para a escola. Disse que passaria no fim do dia para buscá-la. Há muitos anos não iam juntos para o trabalho. Na hora marcada, pois graças a deus os relógios ainda não pararam, pensou, ele a encontrou na porta do prédio. No caminho de volta, o primeiro assunto que surgiu, claro, foi sobre o mal silente. Porém, sem novidades sobre o caso, passaram a falar do trabalho, da casa e de outras coisas. Bateram à porta. Ao abrir, deu com o síndico. Fui à sede da prefeitura e depois de falar com muitas pessoas diferentes cheguei à conclusão que ninguém sabe o que se passa. Estão todos malucos porque os telefones não funcionam e não conseguem se comunicar com o presidente, com o governador nem com outras prefeituras. Mandaram um mensageiro, aliás, vários mensageiros, para diferentes lugares em busca de ajuda. Mas antes que os primeiros retornassem, outros de outras cidades próximas já vinham dar conta do que acontecia. Em todos os lugares de onde se tinha notícia, notícia alguma circulava.

domingo, 21 de março de 2010

Conversa de bar

- Amigo, me vê uma cerveja, por favor.
- Vai querer alguma coisa pra acompanhar?
- Não sei... tem metafísica?
- Não, metafísica tem não senhor.
- Então me vê uma cerveja sem metafísica, por favor.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Prateleiras vazias

O silêncio da casa o fez acordar. Não precisou de muito tempo para se sentir completamente desperto e levantar do sofá-cama. O frio na barriga bem poderia se confundir com a fome, não fosse pelo fato de que ele nunca sentia fome pela manhã. A ansiedade confirmava a certeza sobre aquilo que encontraria, ou melhor, que não encontraria. Foi até a cozinha, pegou um copo de vidro e abriu a geladeira. Não havia nada nas prateleiras além de uma caixa de leite e uma panela com restos de macarrão instantâneo. O copo ficou vazio sobre a pia da cozinha.

* * *

Duas semanas antes, a campainha tocara inesperadamente. Quando ele abriu a porta, lá estava ela com duas malas debaixo dos braços. Disse que precisava de um lugar para ficar durante alguns dias, enquanto esperava a resposta de um emprego na cidade. Ela era atriz, estava ali para fazer uns testes. Assim que a viu, não pôde evitar o pensamento de que ela talvez estivesse voltando para ficar. Já havia quase dois anos que estavam separados, mas os móveis da sala continuavam na mesma posição em que ela os deixara.

No começo, nenhum dos dois podia disfarçar completamente o constrangimento. As pausas eram muito mais longas que as conversas. Ele saia para trabalhar todos os dias e passava as horas se perguntando se quando voltasse para casa ela ainda estaria lá. Ela se encarregava do jantar, mas não cozinhava bem. Ele sempre elogiava os pratos que ela preparava, mas queria mesmo era elogiar seus olhos. Num fim de semana, foram à praia. Noutro dia, se encontraram no museu depois que ele saiu do trabalho. Com pouco tempo, passaram a agir naturalmente, mas uma leve ansiedade pairava no ar sempre que se diziam boa noite. Ele cedera o quarto para ela e estava dormindo na sala. Ela protestou, disse que não queria incomodar, mas ele insistiu e se instalou no sofá-cama.

Certo dia, sem querer, ele a encontrou na cozinha de costas, com o vestido levantado até a cintura, aplicando uma dose de insulina na perna. Ficou olhando sem fazer barulho e pensou em quantas vezes já vira aquela cena anteriormente. Sempre dissera que trocaria de lugar com ela, se pudesse, ao que a ouvia responder que Deus dava o castigo conforme o crime. Ela era diabética e, caso não fizesse as quatro aplicações diárias de insulina em horários controlados, sofreria crises de hipoglicemia que poderiam levá-la ao coma ou até à morte. Para onde quer que fosse, ela levava um estojo com as injeções e o deixava na geladeira, pois o medicamento precisava ser mantido em temperatura adequada.

Um dia ele chegou em casa e a mesa não estava posta. Ela saiu do banho com um sorriso no rosto e disse que naquela noite jantariam fora, para comemorar a notícia de que fora escolhida para um papel. Foram a um restaurante em que haviam jantado quando ainda eram namorados, tempos atrás, mas nem ele nem ela se lembraram disso. Conversaram muito, como se estivessem saindo juntos pela primeira vez. Chegaram em casa, disseram boa noite e ela foi para o quarto. Antes que o sono viesse, ele sentiu a mão dela sobre o ombro. Passaram a noite no sofá-cama e ele adormeceu sentindo-se quase dois anos mais jovem.

Quando acordou na manhã seguinte, o estojo de insulina não estava mais na geladeira. Nas prateleiras, nada além de uma caixa de leite e uma panela com restos de macarrão instantâneo.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


Vou-me embora pra Quixaba
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Fevereiro

Como a gota que transborda o copo
e não se pode evitar

O suspiro que desata o choro
derramando para aliviar

O calor que rebenta em chuva
na máxima saturação do ar

Fevereiro deságua
sem poder mais aguardar

Com o fim anunciado
e de curta duração
se consome em desespero
euforia e redenção
é tensão que alivia
sem resposta ou solução

Por ser tão esperado
passa logo, vai embora
é impulso represado
derrama-se e evapora
na cidade inteira, deságua
mas no meu coração, demora

E aos que choram sua morte
esgotados em plena graça
Fevereiro dissimula
lança cinzas sobre a praça
veste outra fantasia
e de março se disfarça

Pois é mesmo como o tempo
passa, mas não termina
semeia o próximo deságüe
com a última serpentina
escorre por entre as ruas
morre, porém germina




(Inspirado em Verão, de F. Gullar; Cores, de R. Bacelar;
e em todas elas que vejo passar)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Para Espantalho, também sobredito o Pedro

Sempre tive uma curiosidade especial pelos Largos. Em primeiro lugar, porque são elementos urbanos que não existem em Fortaleza, pelo menos não com esse nome. Quando cheguei ao Rio, olhava para um Largo e não conseguia captar sua função precisa no espaço, algo que fosse próprio de um Largo e o distinguisse, por exemplo, de uma praça. Cheguei a pensar que fosse apenas uma questão de arcaísmo lingüístico: algo que antes recebia o nome de Largo e depois passou a ser praça, mas continuou sendo chamado tradicionalmente pela forma antiga. Seria o caso do Largo do Boticário, por exemplo. Mas, ainda nesse campo, notei que enquanto as praças normalmente recebem nomes diretamente (General Osório, São Salvador, Afonso Pena), o Largo é sempre de alguma coisa ou de alguém: das Neves, da Segunda-feira, da Lapa.

Depois de um tempo fui percebendo que havia algo no Largo que não havia na praça. Pense-se, por exemplo, no Largo dos Guimarães ou no Largo dos Leões. Definitivamente, não são praças. O Largo é tipicamente um espaço largo, comparado ao que o cerca. Nesse sentido, entendo o Largo como um espaço que ficou, algo que não foi propriamente planejado (ainda que possa ter sido). Um espaço largo que sobrou depois que tudo foi construído ao seu redor e que posteriormente foi urbanizado e batizado. Servia como uma referência espacial antes e continuou servindo depois. Mas o Largo de São Francisco também é um Largo, e bem largo. Por isso, um Largo é largo, mas é relativo. Nesse sentido, acho que o Largo é um pouco também como um estado de espírito: cada Largo tem o seu e depende de onde está. Assim, defino o Largo como um espaço que ficou, dotado de um determinado estado de espírito.

Curiosamente, o primeiro lugar em que morei no Rio fica ao lado de um Largo que parece praça, o do Machado. Este, por sua vez, fica perto de uma praça que parece Largo, a José de Alencar. E os dois, Largo e praça, levam nomes de escritores. Talvez eles soubessem explicar melhor que eu o que é um Largo e o que é uma praça. Infelizmente, dado que já se foram, terei de me contentar com minhas próprias especulações metafísicas sobre o assunto. O fato é que lá morei com um cara que tempos depois me escreveu uma música chamada Canção dos Largos. Ela fala de Largos, de um espaço vazio que ficou e de um certo estado de espírito. Ele fez por mim algo lindo que eu não poderia fazer. Coisa de amigo, de irmão.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Pense no Haiti

Outro texto do Eduardo Galeano:

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi democrático
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilómetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete nave e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um génio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perdã por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

18/jan/2010 - disponível em http://resistir.info/

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ecos

Um dia, você lembra, vendi a TV
e comprei um colchão bem grande
pra te receber
Larguei o trabalho, o carro, o apê
e disse: meu único bem é você
Mas quando achei que estava
ao meu lado
só havia um bilhete
deixado

Pra onde vai todo o amor não amado?
A saudade que se perde no tempo?
Os suspiros que voam ao vento?
As palavras repetidas na solidão?
Os pensamentos na escuridão?

Dizem que se o universo tiver fim
e é bem possível que seja assim
os sons do mundo um dia voltarão
e então ouviremos os ecos
que desde os australopitecos
atravessaram a fria imensidão

Então fico pensando
pra onde vai todo o amor não amado
será que, um dia, ele volta acumulado?




sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Transcrição diurna

"Na segunda metade do século, o melhor açúcar do mundo brotava do solo esponjoso das planuras da costa do Haiti, um colônia francesa que nessa época se chamava Saint Domingue. Ao norte e a oeste, Haiti converteu-se em sorvedouro de escravos: o açúcar exigia cada vez mais braços. Em 1786, chegaram à colônia 27 mil escravos, e no ano seguinte 40 mil. No outono de 1791, explodiu a revolução. Num só mês, setembro, duzentas plantações de cana foram tomadas pelas chamas; os incêndios e os combates sucederam-se sem trégua à medida que os escravos insurretos iam empurrando os exércitos franceses até o oceano. Os barcos zarparam carregando cada vez mais franceses e cada vez menos açúcar. A guerra derramou rios de sangue e devastou as plantações. Foi longa. O país, em cinzas, ficou paralisado; em fins do século a produção caiu verticalmente. “Em novembro de 1803 quase toda a colônia antigamente florescente, era um grande cemitério de cinzas e escombros”, diz Lepkowski. A revolução haitiana tinha coincidido, e não só no tempo, com a revolução francesa, e Haiti sofreu também, na própria carne, o bloqueio contra a França da coalizão internacional: a Inglaterra dominava os mares. Porém logo sofreu, à medida que sua independência ia-se fazendo inevitável, o bloqueio da França. Cedendo à pressão francesa, o Congresso dos Estados Unidos proibiu o comércio com Haiti, em 1806. Logo em 1825, a França reconheceu a independência de sua antiga colônia, mas em troca de uma gigantesca indenização em dinheiro. Em 1802, pouco depois de Toussaint-Louverture caudilho dos exércitos escravos ser preso, o general Leclerc escreveu a seu cunhado Napoleão: “Eis minha opinião sobre o país: há que suprimir todos os negros das montanhas, homens e mulheres, conservando-se somente as crianças menores de doze anos, exterminar a metade dos negros nas planícies e não deixar na colônia nem um só negro que use jarreteiras". O trópico vingou-se de Leclerc, pois morreu “agarrado pelo vômito negro” apesar das esconjurações mágicas de Paulina Bonapart sem poder cumprir seu plano, porém a indenização em dinheiro tornou-se uma pedra esmagadora sobre as cosas dos haitianos independentes que haviam sobrevivido aos banhos de sangue das sucessivas expedições militares enviadas contra eles. O país nasceu em ruínas e não se recuperou jamais: hoje é o mais pobre da América Latina."

As veias abertas, Eduardo Galeano.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Pensamentos esparsos #02

A pior dor é a que se esconde por trás de um sorriso.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Avatar

Não sou crítico de arte. Procuro embasar minhas avaliações sobre livros, filmes, peças, quadros e esculturas no pouco que estudei sobre essas matérias e nos sentimentos que cada obra provoca em mim. Escrevo ainda sob o efeito do filme Avatar e é sobre ele que gostaria de falar. É possível que a impressionante gama de efeitos visuais aplicada ao filme tenha me impressionado mais do que meu espírito de isenção gostaria, mas não posso deixar de reconhecer que, além do show de computação gráfica, Avatar contém uma mensagem importante sobre todos nós. Cabe ressaltar, em primeiro lugar, que os efeitos visuais utilizados no filme, longe de comprometer a narrativa e desviar o foco da atenção, potencializa a história e as sensações do espectador, ao menos assim se passou comigo. O filme está repleto de cenas em que a natureza é tão bonita e exuberante que faltam palavras para descrevê-la, assim como acontece quando se chega ao topo de uma montanha para assistir ao sol se por no mar. Toda essa maravilha é ainda intensificada pelos recursos 3D, que merecem uma observação a parte. No começo do filme, senti uma certa vertigem ao me deparar com imagens tão assustadoramente reais. Tudo parecia mais real que a própria realidade. Senti-me um pouco sufocado e tive ímpetos de tirar os óculos 3D para respirar um pouco do real, mas aos poucos fui me adaptando e, depois de quse 3 horas de filme, confesso que saí da sala achando a realidade um pouco sem graça.

Mas, como disse, a exuberância visual não compromete o enredo, pelo contrário. Isso acontece justamente porque o centro da história é a própria natureza em relação com os homens. É certo que se pode argumentar contra o típico roteiro da narrativa clássica norte-americana (com herói, par romântico, vilão e final feliz), mas acredito que o conjunto de sensações transmitidas pelo filme consegue o êxito de expandir a fronteira das limitações impostas pela estrutura convencional de narração. Avatar consegue tratar do tema homem-natureza de forma inesperadamente não-piegas para um filme comercial. De quebra, liberta nossa imaginação e nos permite visualizar uma sociedade bem estruturada cujos valores essenciais são radicalmente distintos daqueles que vigoram no nosso mundo. Decerto há muito de hominização imputada aos Na'vi, mas isso não ofusca a imagem principal de um povo que vive dentro da natureza, ao invés de tratá-la como algo alheio, externo e desligado da existência social. Além de mostrar outra forma de relação sociedade-natureza, o filme não se furta a exibir - talvez de forma caricata (mas ainda assim válida) - a miséria ética do comportamento guiado por interesses capitalistas e sua trágica simbiose entre economia, ciência e guerra. Esse padrão de comportamento está presente no dia-a-dia das nossas vidas.

Entrei no cinema cético com relação à celebração em torno do filme. É certo que, diante da enorme estrutura industrial criada em torno do circo cinematográfico, a celebração superficial e comercialóide é inevitável. Afinal, não se pode esperar muito de uma platéia que transforma o Capitão Nascimento em herói nacional, nem de uma crítica babaca que simplesmente não entendeu Tropa de Elite, apenas para citar um exemplo. De toda forma, pelos motivos que tentei expor, saí do cinema com a sensação de ter presenciado, para dizer o mínimo, uma grande experiência audiovisual (muito mais impressionante que as telas de plasma com transmissão high definition - que tornaram impossível esconder os cravos na cara do Will Smith). Acho mesmo que a forma de fazer cinema e a relação entre ficção e realidade está prestes a atingir um ponto angular. Por outro lado, e mais importante, o filme funciona como alegoria da destruição que o homem provoca a si mesmo, desconhecendo culturas, conhecimentos, vidas, povos inteiros, destruindo tudo na busca desenfreada por riqueza e poder. Funciona também como previsão de um futuro ainda mais sombrio para a humanidade. Enfim, a ótima combinação entre beleza visual e enredo faz suspirar e me permite dizer que o filme aborda de forma digna temas importantes para todos nós: homens e sociedade.

Por último, gostaria de dizer que essas reflexões inspiraram um pensamento que talvez faça algum sentido. Se nem toda a miséria humana globalizada, gerada ao longo de séculos, foi capaz de sensibilizar o homem e fazer a humanidade perceber o quão trágica é a existência nos moldes em que vivemos, talvez somente uma verdadeira ameaça de hecatombe ambiental nos faça despertar, através da possibilidade de uma destruição completa da raça humana, para a realidade cruel que a socidade imputa diariamente a cada um de nós. Perceber que o sistema é incompatível com o ambiente do qual emergimos pode nos fazer perceber como ele é incompatível com a própria liberdade humana. Talvez esse seja o melhor uso que o discurso verde, tão banalizado e cinicamente apropriado, pode assumir.

sábado, 28 de novembro de 2009

Quando a memória nos trai

Assim, quanto mais pensava, mais coisas esquecidas ia tirando da memória.
Compreendi então que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia
sem custo passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes
para não se massar. De certo modo, isto era uma vantagem.

Camus, O Estrangeiro


Camus escreveu um dos melhores livros da história. Um dia tentei explicar porque gosto tanto de O estrangeiro. O que me encanta na literatura é descobrir o sentimento humano pelos olhos de outro. Nos livros, os sentimentos do autor são como pequenas grandes amostras dos sentimentos aos quais todos nós estamos sujeitos. Angústia, felicidade, paixão, dúvida, sentimentos próprios e genéricos representados em histórias, personagens e lugares específicos e comuns. Conhecer uma obra é conhecer um autor, e conhecê-lo é conhecer um pouco mais do próprio homem, conhecer quem somos. Um grande livro é um pouco da verdade humana em forma de literatura.

Em uma das passagens de O estrangeiro, Camus descreve a cela onde está preso o personagem. Lá, por longos meses, o condenado aguarda a execução da sentença. Seus pensamentos são a única atividade possível naquele cubículo, onde está sozinho. Ele então começa a se lembrar do seu quarto, no lugar onde morava. Percorre mentalmente cada parede e móvel do antigo cômodo, catalogando tudo o que existia na habitação. Partia de determinado ponto e dava a volta no quarto, mas a cada vez que iniciava essa trajetória, os objetos se apresentavam com mais detalhes. Quanto mais pensava, mais pormenores apareciam. A atividade, que no início se esgotava rapidamente, passou a levar cada vez mais tempo. Sua memória, única coisa que o preenchia naqueles dias, tornou-se super aguçada.

Cada um tem uma relação própria com a memória. Acho que a minha comparece pouco ao meu dia-a-dia. A maior parte das coisas que vivi, mesmo as mais memoráveis, ficam armazenadas em algum compartimento secreto e só raramente voltam à consciência. Sobre as coisas importantes, quando sou demandado, creio que consigo sempre lembrar aquilo que foi mais essencial, mas frequentemente perco os detalhes que encadeiam o ocorrido. Invejo os que se lembram das histórias mais do que os que se lembram dos detalhes. Mas há situações em que a memória nos trai de forma inversa. Em vez de esquecermos o que gostaríamos de lembrar, lembramos o que gostaríamos de esquecer. Uma frase, um gesto, uma situação. Essas memórias, se pudesse, as guardaria naquele mesmo quartinho secreto, acessando-as somente quando quisesse. Às vezes, ao nos tornarmos prisioneiros de certas lembranças, elas aparecem quando menos esperamos e desejamos, mesmo que não exista aparentemente nenhuma relação entre o passado e o presente. E a cada vez que se apresentam, essas memórias vêm com uma riqueza de detalhes que as perpetua ainda mais fortemente na lembrança. Quanto mais lembramos, mais lembramos. Um episódio assim sempre volta dizendo mais do que havia dito antes. De certo modo, isso é uma vantagem. De qualquer forma, sem a memória nada seríamos. E se as lembranças existem é porque nos fazem. Apenas lamento, de vez em quando, a memória não ser uma ilha de edição.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

À amada futura

Queria não ter que escrever este texto, pois queria que fosse já. Mas se não o escrevesse eu não seria eu e tu não serias tu. Já senti tantas vezes o vento passar por debaixo dos pés enquanto saltava. O frio na barriga de ansiedade. A espera entre dois tempos vazios. A música na cabeça quando saio de casa, o susto de acordar depois do meio-dia. Em todas as felicidades estivestes comigo, ajundando-me a fazer de mim o que sou para ti. Em momentos de incompletude máxima, também senti a tua presença, calada. Da mesma forma, estive contigo, chorando sem disfarçar a tristeza, rindo sem vergonha da alegria. O tempo passa, sempre dizes, e aqui ainda estamos, separados. Até o dia em que o céu azul que me comove nos levará um ao outro. Então seremos gêmeos semprevitelinos. E o silêncio que escuto hoje será o mesmo que tu ouves agora. Este som autoconsciente nos dirá que tudo o que passou foi nada e que é chegada a hora de viver. Sou quieto porque te tenho, e assim és também. Até a vida.

Ensaio sobre um amor perdido

A noite já pesava em madrugada e ele estava rodeado pelo silêncio. Há dias não ouvia a voz de qualquer outra pessoa e acabara de perceber que nem a própria voz lhe era familiar. Ensaiou um ruído qualquer a fim dissipar o terror súbito de que poderia ter emudecido. Suspirou aliviado. Não fora dessa vez que o "mal silente" o acometera. Sentiu-se ridículo e um sorriso traidor lhe escapou. Pensou que aquele sorriso era o primeiro após muito tempo. Não pôde fugir do redemoinho de pensamentos que, como uma tempestade, embaralhava sua cabeça. Apenas pensou que ainda poderia ser feliz. Mas como ser feliz ante tão profundo desconsolo? Essa resposta ele ainda não tinha, como não tinha explicação para o que causara todo esse mal. Sentia-se num transe permanente, fora da realidade, e tudo pairava em suspenso frente à profunda tormenta que enfrentava em seu interior. Não dormia bem, comia pouco e contava segundo após segundo a passagem do tempo, na esperança de chegar a hora... Não sabia bem por qual hora esperava. Apenas esperava um trem que parecia não chegar nunca. E com esse trem viria a felicidade da vida normal. Mas o trem não veio e a noite, o turbilhão de pensamentos e o cansaço o venceram. Dormiu. Sonhou que tinha perdido o grande amor da sua vida. Sonhou que nunca mais veria os olhos doces da pessoa que mais amara, nunca mais sentiria o hálito macio em seus lábios, o carinhoso toque de pele, o aconchego de um abraço. Filhos correndo na praia, viagens em família, grandes prataleiras com fotos e livros, nada disso existia. Um pedido de casamento diante da família, um comunicado de que seria pai, uma cama onde dormiriam todas as noites, tudo era evanecente e escapava antes que ele pudesse tocar. No final, não sobrava nada e ele só vagueava por esquinas vazias e sem sentido, em que de um lado era noite e, do outro, dia. Não sabia qual dos dois escolher, se a dor do sol penetrando em suas pálpebras ou a dor silenciosa das sombras que o devorava por dentro. Por um instante, acordou. Percebeu que a realidade era mais dolorosa e se rendeu ao pesadelo, voltando a dormir.

Mais tarde, desperto, lembrou de uma teoria que tinha sobre as "mil palavras". O nome era uma alusão à idéia de que sempre seria possível convencer alguém escolhendo as palavras certas e encadeado-as da melhor forma. Menos sofista que platônico, acreditava que a verdade se faria transparente e o entendimento e concordância seria possível entre quaisquer dois seres pensantes, desde que fossem honestos e agissem de boa vontade. Pensou que podia reverter tudo com um grande discurso, falado ou escrito, mas logo percebeu que honestidade e boa vontade são conceitos relativos e que sua estratégia tinha tudo para fracassar. Pensou que poderia esperar e deixar o tempo fazer seu trabalho, convencer a consciência de que aquilo tudo estava fora de lugar. Mas a consciência fora justamente o fator inicial desse estado. Viu-se completamente impotente. Fazer nada era deixar a solidão se instalar a ponto de esquecer que jamais fora diferente. Fazer qualquer coisa seria brusco e, de antemão, fracassado. Mas ele deveria estar em algum lugar, não poderia permanecer eternamente naquele estágio de nullité grave. Que fazer? Decidiu que o amor precisava de um tempo. Teria que viver sem qualquer resquício de amor, pois qualquer coisa que se assemelhasse a isso o traria de imediato toda a desesperança da qual tentava se livrar. Mas seria possível viver sem amor? Mover-se de um lugar ao outro, esperar ônibus, assistir à televisão, falar com as pessoas, enfim, existir sem estar guiado por sentimentos de amor? Tinha certeza que não, mas não havia outro remédio senão tentar. Perdera seu amor e, junto com ele, como única forma de sobreviver, deveria perder o amor em todas as suas formas. Aonde isso o levaria não pôde concluir. Só queria que o levasse para longe. Longe o bastante para que o amor em geral deixasse de se confundir com o seu amor e a vida pudesse voltar a fazer algum sentido. Quis tornar-se um estrela fria, mas não podia deixar de ser feito de carne, ossos e músculos. Enquanto pensava isso voltou a dormir. E dia após dia, sempre ao acordar ou prestes a adormecer, perguntava-se o que seria melhor: sofrer dormindo ou acordado. Essa e todas as outras perguntas continuavam sem respostas. E o amor também.

12-5-2009