terça-feira, 9 de junho de 2009

Para que servem os amigos



Outro dia o Rafael lembrou como é bom dar de presente para um amigo algo que seria muito legal ter para si. De tão bom que seria possuir esse algo, fazer dele um presente o torna ainda mais especial e isso nos faz mais felizes, pois sabemos que está em boas mãos e que aquela sensação boa de tê-lo é sentida por alguém a quem queremos bem.

Há coisas na vida que eu gostaria muito de ter, mas são coisas tão bonitas que fico ainda mais feliz por não tê-las, sabendo que meus amigos as têm. Queria ter o dom de fazer imagens como o Rafael, prosa como o Pedrinho e poesia como o Rodolfo.

Como o Espantalho me fez observar, a foto acima é uma bela imagem do Cagibrino.
Boa viagem, Boris.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Real e de viés

Talvez a nobreza que você busca, minha pequena, esteja na nossa consciência, pois o mundo lá fora dificilmente será transformado por nossas ações particulares. Acho que ser um intelectual é o que me cabe considerando o lugar de onde venho e o tempo em que nasci. Não sinto a necessidade de fazer nada extraordinário por mim, para sentir que a minha vida compensou. Gostaria de fazer algo extraordinário pela vida em geral, como você também deseja. Mas como isso é muito difícil, não acho que minha vida tenha tanto valor particular a ponto de eu me obrigar a grandes feitos e constantes sensações inéditas. Em suma, não acho que vou escapar definitivamente da angústia. Compreendo que sou mais um que quer ser diferente e, por isso, aceito ser igual. Se a vida me fizer diferente, não fez a mim, Rômulo, mas a um homem qualquer, e esse homem não precisa ser especialmente eu. Não preciso ser feliz, porque tantos que não conheço nem consigo contar serão infelizes independentemente da minha vontade. Posso ser apenas mais um deles e a vida como um todo não terá mudado um milímetro de lugar. Não preciso sequer viver, pois minha existência não beneficia especialmente ninguém, a não ser aqueles que não seriam prejudicados caso eu nunca houvesse existido. Mesmo assim, obstinadamente, sigo vivendo. E quero ter filhos e quero ser feliz. Talvez pelo simples motivo de que, além da angústia, há vida em meu peito. E porque há algo no pôr-do-sol que me faz suspirar.

E enquanto comes chocolates, pequena, sigo aqui, na mansarda. Porque a vida é assim, simples e complicada, fácil e difícil, real e de viés.

"Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai
corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José de Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas outras pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuo corpo-fato"